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9 de ago de 2011

Contos do Tempo Perdido: Livro Um - Através das colinas e muito mais além

Capítulo Três: A nova saga começa
            Todos estavam exaustos, mas Gor não. Isso se devia ao fato que ele era um experiente soldado, pelo que dizia. Mas mesmo assim, ninguém compreendia como ele se tornava uma verdadeira tocha de esperança entre os jovens. Lacktum olhava para ele com certo escárnio. Já Thror conseguiu uma amizade instantânea com o guerreiro, mas ele de um jeito ou de outro fazia amizades com qualquer um. Prova disso era a amizade que ele conseguiu com o mago ruivo. Mais isso pelo grego do que pelo próprio mago. E no final, Lacktum pensou que isso seria até que bom. Afinal, um mago sempre precisa de uma boa proteção física.
            Eles passavam por uma região cheia de árvores e montanhas. Havia lendas que essa região era cheia de criaturas, monstros e fadas. Ninguém sabia como elas eram, nem como atacavam, mas o grupo pensando sobre isso não acreditavam muito que existiam tais seres. Portanto começaram a caminhar em direção a região montanhosa e de mata fechada. Pois mesmo que os encontrassem, uma boa lâmina ou uma magia bem colocada seria o necessário para acabar com qualquer ser que colocasse no caminho deles.
            O grupo inteiro caminhou por muito tempo por toda aquela região. Isso fazia com que todos conversassem um pouco sobre si. Richard sempre falava muito sobre si, mostrando um grande carisma para todos. Era clara a atenção que Hugo e Halphy cediam às palavras do druida. Conseguia ser mais carismático que o próprio feiticeiro, que deveria ser mais fluente em se comunicar com os outros. Afinal, seus poderes provinham de seu autoconhecimento e sua vontade de compreender os mistérios dos outros. Alguns diziam que isso vinha de sua herança dracônica, alguns acreditavam. Outros diziam que provinham de forças celestes. E alguns poucos, acreditavam surgiam das fossas infernais.
            E então depois de tanto caminhar, decidiram acampar no meio da mata.
            Enquanto Thror e Gor pegavam a comida – que poderia ser toda a sorte de animal ou fruta que encontrassem – Halphy, Federick e Richard preparavam as coisas para assar. Já Hugo e Lacktum foram convidados a ajudar a montar as barracas. Convidados, pois não queriam saber de fazer nada naquele acampamento improvisado pelo que diziam. Mas as mãos de Gor poderiam ser mais mágicas do que as dos arcanos, quando se tratava de convencer as pessoas.
            Depois de um bom tempo Gor e Thror voltaram, exatamente quando a madeira estava pronta para assar os alimentos. Eles traziam um pequeno javali com eles. Thror se gabava de ter capturado a criatura, enquanto Gor a assustava. Mas nada difícil para caçadores experientes.
            -Tão experientes que demoraram tanto para voltar até aqui – soltou as farpas o mago ruivo.
            -Veja se consegue terminar essa tenda – falou apontando para o mago Gor.
            -E o que eu ganho com isso?
            -Não leva um soco meu...
            -Não me convenceu...
            Quando falou isso, Lacktum pegou e saiu de perto da barraca que estava montando. Sentou em uma pequena pedra e ficou mexendo em seu grimório. O tomo parecia estar surrado por tanto tempo que estava com o mago inglês. Halphy chegou até o soldado inglês.
            -Calma... – soltou Halphy – Ele é naturalmente chato. Afinal ele é inglês!
            -Com sangue nórdico – gritou Lacktum.
            Enquanto havia essa pequena rusga, Thror fixou o olho em Gor. Richard notou isso rapidamente. E então chegou até o guerreiro grego e começou:
            -Qual o motivo de olhar tanto para Gor? Acha que ele possa estar mentindo para nós quando a estar aqui em nome da Inglaterra?
            -Não é isso... É que eu jurava que o javali tinha ferido o braço dele. Mas agora não tem marca nenhuma.

            Todos estavam sentados na frente da fogueira. Bem perto da chama, exceto o mago que se mostrou até agora, alguém sem vontade nenhuma de criar laços de amizade. Mas o resto do grupo, apesar dos terríveis acontecimentos em Starten, aproveitava esses momentos. O que se notava, era que muitos se interessavam pela vida de cada um. Novamente, com exceção do mago ruivo inglês.
            -Halphy – começou a falar o druida – estava em Starten por quais motivos?
            -Eu? Nada em especial.
            -É mesmo... O que uma moça como você faz em um grupo como esse cheio de homens. Aliás, você não parece ter se espantado com os arcanos e o druida aqui – soltou Gor.
            -E você também não é inglês?
            -Mas eu sou um soldado de longa data!
            -Já entendi! Já entendi! Bem... Além de ser uma artista da vida...
            -Uma ladra você quer dizer – soltou Federick imediatamente.
Halphy olhou com uma pequena fúria. Seus olhos denunciaram que sentiu raiva pelo termo usado. Mas não tinha como retrucar.
-Certo... Uma ladina... Que conviveu muito com magia. Afinal, minha mãe era uma feiticeira.
-Sério? – soltou Hugo, sabendo desse fato.
-Sim. E á pouco tempo, sai de casa, pois minha mãe me pediu para buscar um item de meu ancestral. Um poderoso medalhão que esta em nossa família a gerações. E por isso busco lugares onde existam perigos nesse reino onde possa encontrar desafios dignos do medalhão.
-Muito interessante soltou Gor.
Não era muito bem isso que tinha ocorrido para Halphy estar naquele lugar. Sua mãe era realmente uma feiticeira, mas o modo como soube sobre o item foi completamente diferente do que descreveu. Há certo tempo atrás, ela foi visitada por um poderoso ser em seus sonhos. Esse ser era seu ancestral, um poderoso elfo. Ele lhe contou sobre um item que concederia ao seu detentor, poder para dominar qualquer ser vivo. O que fez com que ela enfrentasse tudo e todos, até sua mãe. Mas ela não iria contar tudo isso aos companheiros.

-Mas me diga então Thror, qual é o seu passado? – aproveitou a garota para falar ao grego.
-Nada – soltou Thror.
-Pare com isso fale algo sobre você! – pediu o paladino.
-Mas não tem nada para contar – disse com olhos bem firmes o guerreiro da cicatriz – não me lembro nada de minha vida. Se é que tive algo em minha vida. Fui treinado pelo meu mestre e pai adotivo Orfeu. Só sei que sou grego, pois vivi sempre naquelas terras que ficaram conhecidas pelos espartanos.
-Esparta? – soltou Gor – Quanta glória os espartano tiveram. Nunca pude conhecer um pessoalmente apesar de viver á tanto tempo.
-Acho que mesmo que quisesse não encontraria um deles – soltou novamente o mago das farpas afiadas – afinal, eles sumiram á séculos atrás. Não há relatos sobre esse povo depois de Cristo.
-Ah é lógico... – soltou rapidamente Gor. Ele não parecia constrangido pela atitude do mago. Parecia que havia ficado constrangido por outro motivo.
-Bem, além disso, sou muito bom com forjas – se gabou Thror - Sou muito bom na criação de armas e armaduras. Posso disser que ninguém se compara a mim nessas terras.
-Sabe forjar anéis? – soltou o isolado mago.
-Não isso é muito fresco para uma pessoa como eu.
-Ahh! – soltou em repreensão o ruivo.
Poucos entenderam o motivo daquilo. Hugo e Halphy entenderam, pois com um forjador no grupo, poderiam ser desenvolvidos itens poderosos. O forjador criava um item e o mago iria imbuir poderes nele. Mas isso era comum entre magos jovens e ambiciosos.
-E você, Hugo e Richard me digam por qual motivos estão aqui? – aproveitou a deixa o paladino Federick.
-Não sei quando ao Richard aqui, - começou Hugo – mas eu vim a essas terras por conta de me aperfeiçoar na Arte. E assim me transformar em alguém que possa ter controle sobre meu próprio destino!
-É mais ou menos isso também – falou Richard bem lentamente – tirando a parte meio exagerada sobre controlar meu próprio destino do Hugo.
Alguns começaram a rir. Parecia que todos começavam a criar uma grande confraternização entre eles, naquele lugar escuro e inóspito. Só notaram isso depois que todas as risadas cessaram. Mas foi então que perguntaram sobre a vida de Federick.
-Bem talvez não acreditem em mim... – falou meio constrangido o paladino.
-Ah! Fale logo homem! – falou Gor
-Ninguém vai estranhar o que irá disser – soltou Hugo.
-Talvez não estranhem, mas talvez riam – disse isso enquanto olhava para fogueira.
-Como assim? – muitos perguntaram.
-Eu sou um príncipe.
Alguns olharam espantados, outros riram. O único que não demonstrou nada foi o mago, novamente.
Em resumo, Federick era um de quatro irmãos que seriam príncipes de terras ao extremo leste de onde estavam. Na verdade ainda não tinha certeza de onde ficava seu reino. Mas o que interessava era o surgimento de uma briga entre os irmãos, que causou a morte de um deles pela mão do paladino. Ele então, para se redimir quanto a esse pecado, entrou numa cruzada própria para curar as feridas de seu coração pelo seu crime. Para isso, encontrou uma sacerdotisa de Cernunnos que lhe disse sobre um imenso perigo que surgia no reino da França.
Nesse momento, nem todos acreditaram, mas todos respeitaram suas palavras. Ele era bem confiável e transmitia uma aura de paz, apesar de ser um guerreiro. Isso demonstrava que era realmente mais que isso: um verdadeiro guerreiro a serviços dos deuses.

Todos iriam parar de conversar, até que alguém olhou para Lacktum.
-Ei ruivo! – perguntou Thror inconseqüente - O que tem para contar de sua vida?
-Nada de mais... – começou Lacktum como se puxasse de sua mente memórias tão terríveis como facas que perfuram o coração – a cerca de um ano vivia num baronato junto a minha família. Meu pai era o dono dessas terras. Todos nós vivíamos felizes: eu, meu pai, minha mãe e minha querida irmã.
-É meio difícil crer que já tenho sido feliz algum dia... – soltou Hugo.
-Porém, o meu pai foi desafiado por um arcano mascarado – e nesse momento, o mago ruivo tomou um ar sombrio em sua voz, com olhos que quase pareciam querer soltar lágrimas - esse mago enfrentou, não somente ele, mas todo o seu exército sozinho. Ele fez tudo isso, mesmo com um grupo de homens bem armados ao seu lado. Um exército de homens terríveis que invadiu minhas terras. Mas que acima de tudo queria torturar meu pai, pois ele foi destruído de forma terrível. Eu me lembro de quando ele deve suas entranhas espalhadas pelas terras que por toda a vida defendeu. Minha irmã e minha mãe tiveram uma morte terrível também. Foram esquartejadas diante de mim enquanto todos destruíam o baronato. Com o fogo crepitando e tudo que eu amava destruído pensei que nada poderia ser pior que aquilo. Ledo engano: ele me falou, enquanto acabava com minhas últimas forças, que deixou o melhor por último. Que não se esqueceu de mim. Que iria me afetar mais do que qualquer um. Ele simplesmente falou que iria capturar minha amada Lirah, minha noiva e acabar com sua vida do modo mais cruel possível. Nunca a encontrei... Tive pistas que ela estaria em Starten, mas pelo que vi eram falsas. Mas voltando ao assunto, após ter sido torturado e quase morto, eu consegui fugir. Não me lembro como nem quando. Só consigo me lembrar das dores que senti, assim como das minhas pernas ardendo pelo frio que senti em cada ferida do meu corpo. Essas feridas não chegavam perto do que minha memória forçava a me lembrar. Não me lembro de todos os detalhes, mas sei que inocentes gritavam, fossem homens, mulheres, anciões ou crianças. Ergui-me, no frio daquele inverno moribundo praticamente... Parecendo com um daqueles mortos famintos que enfrentamos na vila de Starten. E após isso, fui encontrado por um velho mago das antigas tradições. Nunca poderei deixar de ser grato por tudo que obtive com ele. Além de conseguir sobreviver aquele período de dificuldades e tratar minhas feridas, o velho me ensinou a como preparar e lançar magias. E então notei que através daquele mago que me ensinou o básico dos caminhos da Arte, eu teria a chave de minha vingança – então, os olhos do jovem ruivo perderam o tom triste e começaram a ter uma força sinistra e louca, um tom maligno – pois onde meu pai falhou, eu venceria. A arma que o mago mascarado possuía meu pai nunca acreditou: magia, mana ou Arte. Era mais mortal que qualquer espada, machado, martelo, clava, lança, maça, adaga, punho ou qualquer coisa que o homem mortal jamais desenvolveu. Para enfrentar um oponente de igual para igual, meu pai disse certa vez que o primeiro passo é usar a mesma arma. Assim, um dia vou obter minha vingança!
Quando notaram, Lacktum estava de pé mostrando um ar de loucura único. Todos olhavam com terror para o mago. Mas Gor, que não parecia se abalar com tudo isso olhou na direção do jovem e disse:
-Se me permite só obter poder para se vingar é só parte do que você pretende. Você deve ter uma meta. Por acaso pretende o que?
-Me tornar um mestre do destino.
Muitos ficaram sem entender, entre eles Federick, Thror e Richard. Porém, novamente o feiticeiro e a ladina compreenderam e se espantaram. O que ele pretendia era alcançar um grau de magia que pudesse alterar a ordem de fatos e acontecimentos. Em resumo, algo que os magos quase sempre queriam era dominar o tempo, o espaço e o destino. Ele simplesmente queria dominar o destino de um ser humano. E com certeza serviria para derrotar o tal mago mascarado que ele citou em sua história. De um modo ou de outro, todos estavam sem vontade de conversar mais.
Quando notaram, todos se cumprimentaram rapidamente para então dormir. Todos exceto o mago ruivo que dormiu como uma pedra e o soldado inglês Gor, que se mantinha desperto. Ele olhou em direção ao caminho que iriam fazer na manhã seguinte. Ele olhava com certo medo do que aqueles jovens poderiam encontrar mais a frente. Algo que talvez não estejam prontos para enfrentar. Mas ele tinha que os levar diante o seu destino, especialmente que sabia o que estavam prestes a encontrar. Desafios que iriam tornar eles em pessoas mais fortes e certas de seu destino... Ou os tornar uma lenda. Fosse vencendo ou perdendo.
-Oh James e Galtran... Como queria que estivessem ainda aqui guiando eles. E a mim. Sinto saudades das discussões entre vocês e a velha Agness Idisamir. Ou das constantes gritarias da boa Meg. Ou quem sabe as idéias sarcásticas de Demetrios D’London. Isso tudo que um grupo possui. Eu reparo que esse grupo tem tudo isso... Mas aquele tempo parece que nunca voltara. Onde estiverem, espero que o Kalidor cuide bem de todos... Se ainda estiverem unidos. Os Imortais nunca serão separados... É isso que dissem não é? Imortais Perdidos nunca se separam, mas isso não ocorreu comigo – nesse instante, Gor soltou uma lágrima de tristeza – e quantas lendas surgiram entre vocês. Mas um dia sei que ainda irei encontrar todos novamente. Como daquela vez... Como daquela vez... Como naquela época... Estou velho demais para certas coisas de hoje em dia. Mas qual o motivo de estar rezando para pessoas ainda vivas? Realmente faz muito tempo que estou nas terras desse mundo. É melhor eu dormir para me esquecer disso.
E enquanto deitava para dormir, se Gor tivesse notado ao seu redor saberia que entre o grupo recém formado, havia alguém que não dormiu. A jovem e astuta, meio-elfa, que não compreendeu bem as falas do inglês, mas sabia que poderiam ser de grande utilidade no momento certo. Mas por enquanto eram mais nada que palavras sem nenhum uso prático. Só deveriam ser guardadas para uma nova oportunidade. Uma coisa ao menos á deixava confusa: ela leu muito livros de feitiços e lendas antigas e o nome Agness Idisamir, apareceu sobre algumas lendas que se referiam a alguns confrontos que teriam ocorrido na Inglaterra a cerca de mais de quinhentos anos. Sua intuição acreditava que a linhagem materna de sua família deveria saber algo sobre todos aqueles fatos. Pena tanto ela como sua mãe serem excluídas da corte sidhe. Se não fosse por sua avó, ela teria tudo que sempre quis
Todos então dormiram.

A manhã chegava. Gor se levantou primeiro e enquanto fritava a refeição matutina, cantava uma velha canção em nórdico. Parecia tão triste, que apesar dos olhos de felicidade do guerreiro, trazia um ar fúnebre logo de manhã. O único interessado na canção mórbida era Lacktum.
-Me diga – falou Lacktum com a mão no queixo – o que você fala nessa canção? Parece uma das letras fúnebres dos vikings.
Sem nem mudar os olhos dos ovos que preparava começou a recitar em latim, o idioma que todos entendiam.
-No alto vejo meu pai. No alto vejo minha mãe. No alto vejo meus irmão e irmãs. Vejo todos que antecederam a mim e a eles, desde o inicio. Pedem que assuma meu lugar no salão dos guerreiros de Odin, onde tomamos o hidromel dos deuses e viveremos para sempre.
-Vou me lembrar disso um dia.
-Quando estiver próximo de morrer.
-Mas ninguém que esteja para morrer iria cantar algo para sua morte. Isso significaria medo da morte.
-Um velho amigo meu, de nome Kalidor, dizia que isso não era por medo. Mas sim, por respeito á morte. Se você não tem medo da morte você a respeita? Pois não a temer pode significar que você não acredita nela. Mas ela acredita em tudo que pode tocar. E ela toca a tudo que existiu, existira ou existe.
Enquanto vários arrumavam as coisas para desarmar o acampamento, Lacktum olhava para onde Gor estava indo. Por alguns segundos o mago desejou seguir as vontades do pai e se tornar um cavaleiro, pois então compreenderia como um guerreiro de verdade, pensa e age. Mas ele não poderia pensar muito nisso agora. Tinha que obter mais poder o mais rápido possível. Nem que isso custasse tudo o que possuía. E como estava agora não seria muito que deveria pagar.

Chegaram à cidade portuária logo pela manhã. Era cheia de vida, mostrando várias pessoas que trabalhavam ativamente em diferentes funções. Enquanto os aventureiros a cruzavam podiam notar várias profissões e ofícios que havia ali. Era possível ver surgir padeiros, tecelões, ferreiros, comerciantes, marinheiros, pescadores, escultores e até mesmo poetas naquela pequena, mas ativa cidade. Cruzavam cada a um, de seu modo na frente dos aventureiros.
Os padeiros ofereciam não só pães como vários alimentos como queijo, vinho e cereais. Já os tecelões começavam mostra tecidos que vinham das terras orientais, mas aos quais Halphy tinha certeza vinha da Inglaterra. Os ferreiros ficavam só gritando o tempo todo sobre armas maravilhosas. Sempre era necessário pegar Thror pelo braço, pois ficava conversando com os homens que forjavam sobre técnicas novas sobre o ofício. Os comerciantes eram um caso hilário a parte para Lacktum. Diziam alguns que estavam vendendo itens mágicos do Oriente ou itens sagrados do período de quando Cristo andava entre os homens e o ruivo fazia questão de incendiar ou quebrava sempre que possível.
-Não era mágico? – perguntava debochado o mago – Então como pode ter se quebrado tão facilmente?
Isso irritava a todos. Inclusive, aqueles que eram de seu grupo. Todos tinham o direito à ignorância. Não importava como.
Mas passando pela área dos pescadores estava a verdadeira intenção deles. Havia marinheiros sim, mas numa taverna que ficava nas docas estaria o bando pirata que necessitavam para a missão de chegar ao Oráculo de Delfos: Joseph Boas Línguas. Pelo menos era isso que Gor dizia sobre o dito cujo.
-Será que ele é tão bom quando dizem? – perguntou Richard ao guerreiro Gor.
-Ao menos é o que me contaram – disse o inglês apaziguando o jovem – mas não se preocupe, mesmo que não consigamos a ajuda dele vamos chegar lá. Nem que tenhamos que ir a pé.
-A pé? Ah não! – soltou revoltada Halphy.
-Que isso Halphy – falou em contrapartida Hugo – seria um bom exercício não é? E não foi na Grécia que surgiu os jogos Olímpicos? Podemos parecer com aquele atleta que correu até Olimpia! Que tal?
De repente, Halphy parou e olhou com tamanha raiva para o feiticeiro, que se ele pudesse se esconder com sua magia o faria naquele instante. Em vez disso, somente se calou o mais rápido que pode.
Quando Gor iria iniciar novo dialogo, foi possível ver um corpo passando por trás dele, quebrando a janela da tal taverna que eles iriam adentrar. Era um homem completamente bêbado que caia ao chão com a mão no rosto. Da taverna era possível ver o punho furioso de outro homem com um saiote vermelho e um tapa-olho. Sua camisa era aberta, mostrando pouco físico, mas extrema habilidade em combate com várias cicatrizes no peito. Seu cabelo era loiro e extremamente bagunçado. E enquanto gritava com o sujeito caído, tomava três goles de rum que ficava em sua mão direita.
-Olha aqui seu maldito cão de água doce, da próxima vez que tentar usurpar o rum de algum homem, tenha certeza que ele já o bebeu todo, ou que ele não é um pirata. Entendeu? – e então voltou para dentro do estabelecimento.
Todos os arcanos e o druida do grupo ficaram horrorizados com aquela cena de brutalidade pura. Já o primeiro ímpeto de Gor foi olhar para Halphy e disse:
-Não vá me roubar nada ouviu?
-Mas eu nem... - tentou argumentar, a ladina, mas Gor atravessou logo em direção a porta do estabelecimento.

Quando entraram naquela taverna, tinham certeza que alguém morreu lá dentro. Porém, Gor disse que sabia distinguir muito bem o cheiro de um bando de bêbados para o de um corpo. Foi então que os jovens aventureiros quiseram estar novamente em Starten. Os mortos fediam menos.
Lacktum fingia não se incomodar com o cheiro, mas sem sucesso. Ele sempre viveu bem e deve do bom e do melhor próximo a pessoas que disfarçavam seu odores com óleo ou perfumes aromatizantes. Todo aquele cheiro de carniça, pensava ele, estava longe de um lar dos Van Kristen. Mas quando se esta entre bárbaros trate a eles como bárbaros, solucionou ele.
-Quem é o tal Joseph? Aquele que socou o bêbado? – sugeriu Lacktum apresado.
-Não, mas pelo que sei – falou Gor se lembrando do que conhecia sobre o pirata – aquele era seu imediato, Iohan. Parece que é um mago.
-Um mago tão forte e com um tapa-olho? –perguntou Richard?
-Ora isso não significa nada meu caro druida... – respondeu enquanto atravessava a taverna o guerreiro inglês.
Havia vários outros homens e mulheres com rostos nem um pouco convidativos. Mas nada que os músculos de Gor e Thror não intimidassem, ou olhar de Lacktum não conseguisse criar um ar de mistério forte para deixar os clientes da taverna com receio de se aproximar. Enquanto isso, Richard e Hugo paravam a ladina quando ela tentava furtar qualquer item na taverna. Federick preferiu não entrar num lugar como aquele.
Quando notaram estavam na frente de um homem com seus vinte verões mais ou menos, com uma barba digna de um anão, sentado com seus pés sobre uma mesa. Possuía uma faixa na cabeça e uma espada em cima da mesa. Sua camisa estava rasgada e completamente aberta. Era difícil distinguir aquela camisa de trapos. Este era Joseph Boas Línguas.
Ao lado dele estava o homem que esmurrou o bêbado de pé observando atentamente a todos.
-O que querem de mim seu bando de cães sarnento de água doce? – exigiu o homem barbado.
-Eles parecem ter um sério problema com relação à água doce, não é Lacktum? – soltou o feiticeiro.
-Calado Hugo! Ou quer que consigamos sair daqui, em pedaços? -  falou o mago aflito.
-Esta bem...
-Então? Digam logo!
-Estamos aqui – começou a falar Gor - já que precisamos de um navio extremamente rápido. O nosso grupo precisa chegar á costa grega o mais rápido possível. Pagamos bem, mas queremos usar o seu meio único de viagem se é que me entende?
-O quanto podem pagar? - perguntou logo Joseph.
De repente, Joseph retirou um pequeno, mas extraordinário rubi de dentro de sua luva. Era vermelho como sangue e era tão bonito que Halphy gritou:
-Qual o motivo de você ter escondido essa preciosidade de mim?
-Pois você iria me roubar...
-Bom argumento – soltou o feiticeiro italiano.
-Calados! – exigiu o soldado e líder do grupo – E então podemos contar com o seu auxílio meu caro Joseph?
Falando isso, Gor jogou a pedra para o pirata.  E este, olhou com um ar de espanto. Aquela pedra era tão vermelha quanto o sangue! E tão bem trabalhada que poderia ser realmente considerada uma obra de arte. Mesmo não sendo um artista, Joseph apreciava uma bela arte, especialmente quando se tratava de dinheiro. Quando se dizia dinheiro, ele queria disser dinheiro o bastante para parar de viver na vida de um ladrão do mar.
Todos do grupo olhavam com medo. Se eles não conseguissem aquele transporte perderiam um dos meios mais rápidos de transporte. Eles não poderiam perder isso. Lacktum até pensou em usar suas magias contra o capitão pirata, mas sabia que o tal Iohan poderia o atrapalhar. Só sobrava confiar na lábia de Gor.
-De onde veio essa, podem vir mais algumas.
-Eu tenho uma tripulação agora, vocês um navio. Meu nome é Joseph Boas Línguas, capitão do navio Salva Ventos! Bem vindos a bordo.

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