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17 de abr de 2012

Contos do Tempo Perdido - Livro 2: Vivendo em uma prece

Ele já lhe disse que lhe ama?
Eu sou a verdade e a vida
Você ao menos pode acreditar
Você tem muito que agradecer
A tua vida é mais importante
Do que jamais imaginou
Por isso olhe bem aonde vai
Ele te ama, confie nele!
Ele conhece todos os teus problemas
E quando você chora escondido
Apesar de tu não querer
Você tem muito que aprender...
Arctus chega, enquanto Gustavo declamava essa canção. Para o clérigo, era comum ouvir Gustavo cantar desde que teve aquele sonho. Parecia a mais pura verdade, ver seu irmão mais novo num espectro luminoso azul, dizendo que já serviu o seu propósito na vida. Mas como seu irmão, o destemido Gustavo deveria preencher seu lugar de companheiro num grupo de aventureiros.
O paladino continuava na janela. É então que sente a mão do clérigo em seu ombro.
-E então Salles? Preparado?
-Sim Arctus – falou colocando sobre a do sacerdote.
-Acha mesmo que ele pereceu?
-Eu queria que não tivesse... Mas acho que sim. Sinto que sim.
-Entendo.
Gustavo então se vira em direção ao amigo que o apoiava e com os olhos castanhos e tristes diz firme:
-Vamos, pois temos muita coisa para ver. E a Santa Sé conta conosco!
Arctus solta um sorriso amarelo, pois sabe que a empolgação do amigo é falsa.
Eles descem a escada da taverna. Os dois sentiam uma má sensação. Eram aliados a um bom tempo e um sabe quando o outro estava ferido na alma. Quando chegassem ao final das escadas teriam que partir a uma jornada que poderia nunca mais ter volta. Que Deus faça com que estejam errados foi o que pensaram.
Pagam as contas, inclusive dos estábulos onde mantinham os cavalos. Ainda não era tempo de Gustavo possuir uma montaria especial, mas acreditava que sua honra logo mostraria ao Pai que era merecedor. Mas se contentava com seu velho Sam, um belo corcel pesado.
Enquanto Arctus mexia na sela de sua montaria Fred, o clérigo notava que o cavalo se incomodava com peso dos itens. Mesmo assim o sacerdote se preparou para subir no animal.
-Se acalme amigo - disse o padre Arctus enquanto passava a mão no pelo do animal – calma. Quando chegarmos lá, te arranjo o que comer.
Foi então que as montarias começaram a cavalgar cada qual com seu respectivo cavaleiro. E enquanto seguiam o sol no horizonte, conversavam.
-Qual era o nome da musica que declamava? – perguntou curioso o sacerdote.
-Ultimo aviso. Apropriado não é?
Arctus mais parecia um templário, todo equipado e cheio de orgulho desses monges guerreiros. Ele havia raspado o meio de sua cabeça para não ter nenhum problema em combate, o que não era nenhum incômodo para si. Um sacerdote de Deus teria que combater muitos maus, ele pensava.
O paladino de longos cabelos negros não estava mais triste ou nostálgico. Só receava pelo seu irmão. Nem pensava na segurança de seu reino. Afinal, o sol que brilhava sob sua cota de malha, não refletiria mais o sorriso.

Vários dias se passaram desde que os jovens aventureiros voltaram do Oriente. Eles não se sentiam como antes. Não festejavam como naquelas antigas semanas que iniciaram ali, quando Federick estava entre eles. Não sentiam o ótimo gosto do vinho bom. Tão pouco se olhavam entre si, mesmo que fosse só para conversar um pouco sobre o que fariam agora. Essa situação se arrastou por duas semanas.
Azerov e Madelyne, sempre tentavam alegrar os amigos que conquistaram em tão pouco tempo naquela torre. O velho mago conversava com Halphy e Lacktum, algumas vezes calmamente tentando os fazer melhorarem, outras de modo repreensivo. Afinal, eram eles que tinham o maior poder sobre o animo do grupo. Experiente, o mago dono da torre falava para eles que ambos tinham maior força sobre o grupo, pois eram extremamente inteligentes. Líderes natos, ele dizia. Mas eles se deixavam envolver pela dor da perda de um companheiro.
Só Gor se mantinha forte. Ele se mantinha como um verdadeiro soldado, que ignorava os sentimentos tristes e depressivos. Um forte, um homem de fibra, mas não frio. Até Thror se levantava de sua depressão quando o inglês surgia.
Um estranho fato ocorreu quando o mago inglês se sentia triste e estava completamente só na torre.
Lacktum tinha vários momentos de depressão. E em um deles ocorreu um fato sinistro e macabro. Enquanto lia seu grimório, o mago ouviu o seguinte.
Van Kristen ouça...
Ele olhou ao redor e não viu nada. Quando notou as suas mãos, cobertas pela luva cheias de inscrições mágicas, elas tremeram.
-Mas que In...
Ouça Van Kristen Vou precisar...
De repente, o mago colocou as mãos em seus ouvidos. Era como se uma serpente penetrasse em sua cabeça. Ele se debatia, para inutilmente, retirar essa voz do seu espírito. Eram livros e pergaminhos caindo no chão. Nada fazia a voz venenosa parar seu processo.
-Saia de onde estiver! – berrava o jovem.
Você sabe que estou em sua mente
Lacktum parou de pé, no meio da sala. Ele colocava a mão sobre si, como se adiantasse algo.
A sala se manteve em silêncio. Foi quando Lacktum escutou:
Vou precisar do seu corpo
Quando escutou isso, um forte impacto tomou corpo e alma do mago. Ele caiu ao chão tão rápido, quanto uma arvore que perde as raízes.

Os dias que se seguiram, foram estranhos. Lacktum era extremamente obsessivo, mas aquilo era demais para ele. Os isolamentos, os utensílios mágicos secretos, os modos rudes e até os nomes que trocava, não combinavam com Lacktum. Vez ou outra era possível notar o mago indo a lugares isolados, fora da torre. E isso preocupava a todos.
Apesar de nunca ter sido tão ligado ao paladino, muitos pensavam que Lacktum estava assim por conta da morte do companheiro. Eles mal desconfiavam das atitudes suspeitas do mago. Não achavam estranhas as fugas dele, porém, sabiam que ocorriam bem mais do que de costume.
Só Azerov conversava com ele.
Este se recuperava lentamente dos dias em que leu o livro. Mas ainda, exigia cada vez mais de Madelyne. Ela ficava fazendo as tarefas que antes compartilhava com Azerov. O engraçado era que o mago nunca a trava com uma serva. Era mais como uma amiga. Mas Halphy, que já havia percebido isso, se utilizou desse fato para verificar a torre.
Como Madelyne assumiu algumas tarefas de Azerov, ela não poderia ficar em todas as partes da torre ao mesmo tempo. E Halphy tinha certeza que aquele local deveria possuir uma localidade secreta. Era típico de lugares assim possuírem portas secretas. E ela iria achar.
Quando estava em uma de suas explorações, por esse local secreto, notou um pequeno fluxo de ar próximo da escada para o primeiro andar. Começou a tatear a parede, com a finalidade de encontrar uma brecha, uma pedra solta ou uma alavanca. Foi quando mexeu um tijolo um tanto quanto suspeito e gasto. E nesse momento, parte da estrutura da parede se moveu, revelando uma passagem.
Halphy entrou no lugar calmamente, com a preocupação de não ser emboscada. Apesar de já viver a mais de um mês ali, nunca viu aquela passagem. O que lhe causava medo. Ela sabia que magos eram conhecidos por itens mágicos, mas também por armadilhas arcanas.
Os passos eram leve como as de um gato. A meio elfa abafava os sons da caverna, como podia. Havia praticado roubos o bastante para aprender como aliar as sombras ao silêncio. E ela se sentia mestra nessa arte.
Após um bom tempo, a caverna se mostrou uma enorme gruta. Era linda. Todo o lugar exalava a magia silvestre, a força da flora e da fauna. A ladina controlava muito pouco da Arte, mas já sabia que a magia provinha de algum lugar em Avalon[1]. Mas será que Azerov conhecia alguém da Ilha do Repouso do Rei? Da Ilha das Brumas? Ela logo teria essa resposta.
Quando notou, ouviu passos na caverna. Eram delicados, mas já pareciam acostumados com as pedras do lugar. Foi quando Halphy notou algo que nunca imaginaria. Quem estava ali era Madelyne.
Halphy não sabia o que fazer. Não poderia se esconder, muito menos mentir. Ela ergueu a besta de mão. Foi quando a ladina, vi pela primeira vez, o rosto da jovem encapuzada. Ela tirou o capuz. Madelyne era uma ninfa.
-Que coisa, - disse Madelyne espantada, mas não assustada – achei que ninguém acharia esse lugar. Você é fenomenal.
Halphy abaixou à besta quando constatou que a imagem de Madelyne era de uma ninfa.
-Você... Você... É uma ninfa!
Madelyne sorriu.
-Sou sim. Perdão se nunca revelei isso a vocês.
-Mas... O que... Por qual motivo?
-Primeiro, uma ninfa não seria bem tratada entre os homens mortais. Segundo eu tenho alguns problemas que Azerov concordou em me ajudar.
-Como assim?
Pegando na mão de Halphy, a ninfa continuou:
-Só posso lhe dizer que você não deve contar isso a ninguém. Promete?
-Mas... Olha... Ah! Esta bem, mas só me conte uma coisa.
-O que seria?
-Qual é o seu nome? O verdadeiro. Pois eu sei que uma ninfa não teria o simples nome de Madelyne. Ainda mais alguém de Avalon. Por isso essa gruta lembra tanto a Ilha das Brumas, não é?
As duas riram como confidentes amigas de muitos anos. Apesar de tudo, elas tinham um parentesco, afinal ambas tinham sangue faérico. E ao que parecia, corria forte em ambas.
-Esta bem, - respondeu a ninfa com ar de encabulada – meu nome é Aluniel.

Os dias se passaram e Azerov se recuperar do livro, já havia preparado a carga da pedra de Ixxanon.  Eles estavam preparados para mais de uma viagem. E eles não tinham muito tempo. Ficaram sabendo que a ilha da bruxa havia sido atacada por um bando misterioso de mercenários. Com certeza o mesmo grupo da criatura que estaria caçando eles desde Starten. Mas isso não era algo para ser considerado, pelo menos não agora.
Novamente Azerov se preparava no segundo andar. Varias runas de conjuração circundavam toda a sala, e como antes, havia uma pedra no centro que acumulava a mana que estava ao redor da torre. Ela ofuscava os itens mágicos e mundanos da sala.
-Já sabem o procedimento. Mas repito, irão para o norte? Irão para o Reino da França? – soltou Azerov seriamente.
Halphy olhou para Gor. Este assentiu com a cabeça, como se tudo estivesse pronto. Lacktum ficou no canto, olhando a todos de forma indiferente e se lembrando da conversa com Gor.

Gor chamou para conversar com o jovem um belo dia.
Estavam em um pequeno morro onde havia colunas de uma ruína de origem espartana pensava o mago. Em uma delas, Gor se sentou, enquanto Lacktum olhava tudo ao redor de pé. Estava irritado como de costume.
-O que foi guerreiro?
-Lacktum... Quem lhe concedeu a adaga e o brinco?
-Meu pai – respondeu confuso o mago.
-Você sabe do que eles são feitos?
-Não.
-Eu acho que são moldados em metal espectral.
-Como assim? Metal espectral? Nunca ouvi falar disso.
O dia estava claro e cheio de pássaros no céu. Pareciam que estavam em migração.
-Dizem lendas que alguns elfos negros encontraram um metal de qualidade boa. Porém, quando ele era forjado pensando em alguém as propriedades das armas e armaduras ganhavam especialidades únicas, a favor ou contra a pessoa.
-Como o Coração de Kana?
-Sim, mas outras raças já o encontraram na superfície e o chamaram de metal do ressentimento.
 O silencio preencheu o dia.
-Mas o que você quer dizer com isso?
-Olhe Lacktum, em boa parte dos casos o forjador tem um grande rancor da pessoa para qual a arma ou item foi sincronizado mentalmente. O que constitui um mistério. Que talvez só você desvende. Seu pai deveria conhecer o próprio assassino pelo que me falou. Qual o motivo disso?
-Nem imagino, mas seja o que for ele deveria querer me proteger. Mesmo assim, como você veio a me falar sobre isso só agora? Conhece a nós um pouco mais de três meses e só agora me fala sobre todos esses fatos.
-Eu escondi a todos que era um Imortal Esquecido, pois precisava da confiança de todos que estão aqui. Quando era um homem comum era sempre tratado como uma pessoa normal, sem nenhum privilegio. Mas quando as pessoas sabiam do meu poder sobre a morte, sobre a minha imortalidade, queriam me usar ou me tratavam como um demônio ou bruxo. Precisava ter certeza que vocês confiavam em mim pelo que sou de verdade, não pelo que eu posso fazer ou fui. E com vivi até hoje não queria ser maltratado, nem usado como na época em que era mortal. Mas agora não pense sobre mim e sim em como seus itens podem ser a resposta para o que aconteceu com você.
Gor então se levantou, chegou próximo de Lacktum e disse:
-Pense nisso, se a mascara o deixar fazer.
Foi então que Lacktum conseguiu lembrar precisamente das palavras de seu pai.
Destrua aquele que surgir quando esses itens demonstrarem sua verdadeira face
Lacktum se calou enquanto o guerreiro inglês voltava para a torre. Ele segurava a adaga pela lamina. O que saia da pele era sangue.

Lacktum voltou a si. Azerov olhava para o jovem mago com ar de piedade. Ele sabia que a máscara o controlava, mas não poderia fazer nada, afinal deveria ser parte de seu destino. O mago ruivo tinha sido fraco em relação aos poderes do Desalmado.
O que Azerov e Halphy souberam sobre o Desalmado em suas pesquisas foi que ele já foi um poderoso e grande mago de renome até mesmo em terras desconhecidas. Tão ou mais perigoso – era o que diziam as lendas – que Merlin, Morgana LeFay, Paracelso ou Gibraltan D’Asgard. Ele enlouqueceu após ter sido capturado e torturado durante meses por um antigo inimigo. Ambos temiam o que poderia acontecer com Van Kristen, pois a consciência do Desalmado residiria na máscara.
Mas não era momento para isso.
-Perto de uma colina Francesa existe um templo em uma colina. Procurem direito, pois esta encravada naquela região pelo que dizem os livros. Cuidado, pois lá residem alguns monstros. Então partam... Agora!
O jovem mago iria esboçar uma pergunta, quando a magia de Azerov estava pronta e amplificada pelo poder da pedra, os fazendo sumir novamente em um piscar de olhos. O experiente mago olhou para quem ficou na torre. Novamente, Richard e Hugo, ficaram por lá. Mas o velho caduco iria aproveitar dos dois.
-Acham que vão ficar só estudando e treinando aqui na torre? Nada disso! Você de cabelo liso, vá limpar todo esse lugar. Já você vá limpar, vá ajudar Madelyne a cozinhar. Prepare um peixe de preferência.
-Eu sou Richard, e ele se chama Hugo. Eu sou um druida, ele é um feiticeiro. E não somos seus empregados! Quantas vezes vamos ter que lhe falar isso?
-Olha que eu lanço magia de novo em vocês!
-Ai, ai. Algumas vezes – começou a falar Hugo, olhando para cima como se suplicasse ajuda – eu penso que não seria se fossemos com eles.

Enquanto cavalgavam, Arctus e Gustavo conversavam.
-Para onde exatamente vamos amigo? Quais foram às ordens da Santa Sé? – perguntou um pouco mais entusiasmado o paladino.
-Iremos para o Reino da França! Temos ordens de encontrar um grupo de aventureiros que caçam uma serie de artefatos poderosos. E isso de certa forma vai de encontro com meus planos.
-Planos? Que planos?
-Quero conquistar postos na Igreja e com isso ser mandado para Jerusalém.
-Então eu lhe ajudarei meu amigo. Um sacerdote como você precisa de uma espada para se proteger.
-Há, há! Muito grato Gustavo, muito grato!

Quando abriram os olhos, estavam diante de uma pequena vila. Halphy logo a reconheceu como um lugar de origem de sua terra natal. Estavam no Reino da França.
Lacktum então começou a falar.
-Vamos direto para a tal colina. Quando mais cedo formos, mais cedo voltamos.
O guerreiro inglês ficou furioso. Mantinha os olhos sobre o mago ruivo. Então o líder falou:
Com que autoridade quer mandar no grupo? O grupo segue minhas ordens, e eu digo para seguirmos até a vila para obter informações. Ou tem algo contra?
Ele se opõe a nós Ele não sofreu o que nós sofremos É melhor se livrar dele logo...
-Cale a boca! – gritou a esmo Lacktum.
Foi quando muitos do grupo notaram com Lacktum havia mudado. Todos começaram na direção da vila como Gor havia falado. Somente Halphy e Gor ficaram um pouco mais de tempo naquele mesmo lugar. Mas todos dentro do grupo agora o olhavam com certo temor.
-Lacktum, - falou alto Halphy com cara de emburrada – pelo menos encare Gor, não grite com o vento. E sem motivo algum! Ele esta certo!
Foi quando Lacktum finalmente notou que havia ficado nervoso com a tal voz. Não com um ser vivo, não com uma criatura, nem um animal, mas sim com um som que escutava em sua mente. Ele então colocou uma das mãos sobre a nuca em sinal de desespero. Não compreendia o que estava acontecendo de errado.
-O que ocorre comigo? – falava isso baixo enquanto caminhava na direção da vila - Será que nós estamos enlouquecendo? Mas espere...  O que eu disse?
Não os ouça Não conceda atenção para eles Nós estamos juntos

Todo o grupo tinha sido mandado para perto de uma vila, em uma pequena floresta que lá havia. Pouco a pouco saiam da mata. Obviamente, os últimos a saírem foram Halphy e Gor. Enquanto isso, o mago continuava transtornado pela voz que escutava e as ordens que dela vinham... Ordens? Não eram lembranças? A certeza já não existia em sua mente o traiam. Elas surgiam como se fosse dele. Era muito estranho, mas era bom, ele pensava. De uma forma macabra, era muito bom.
Quando lá chegaram se lembraram de Starten, onde boa parte deles havia se encontrado. Não havia como não se lembrar. Porém, essa cidade parecia mais prospera do que a pequena vila em que os aventureiros de encontraram pela primeira vez em sua jornada. Mesmo assim algo, como Starten, estava errado.
As portas e janelas, todas fechadas, mostravam que o lugar transbordava medo. Não havia pessoas nas ruas, nem na fonte que lá existia, com só um pobre mendigo dormindo ao seu lado. O único lugar que demonstrava um pouco de vida era a igreja. Isso se devia a um coroinha, que olhava com receio para os jovens. Mas mesmo com temor ele chamou o padre.
Gor então falou de canto de boca:
-Será que estão com medo de nós?
-Acho que não inglês – falou Halphy, com seus olhos amendoados – se fosse isso, eles deveriam saber com antecedência sobre nós. E para isso alguém deveria entender de magia.
-Realmente – soltou Seton – mas quem não garante que haja um mago na cidade?
-Um mago, em uma cidade que se encontra no meio do Reino da França? Você não acha que isso ficaria muito exposto para as autoridades locais?
-Verdade.
-Mas com o rei saindo em direção das Cruzadas isso poderia ser despercebido.
Foi então que Lacktum atravessou o grupo, rumo ao centro da cidade com muita rudeza.
-Fiquem calados e comecem a andar. Nada começa ou termina se ficarmos parados aqui!
O guerreiro Gor se controlava o quanto podia. Halphy se colocava na frente do inglês, impedindo uma tentativa de ataque do soldado contra Lacktum. Esse se colocava mais a frente do grupo, como se os liderasse em direção da igreja. Mas ninguém pensava nele como um líder de verdade. Ultimamente ele agia mais como um estorvo do que um membro do grupo que se uniu a eles em Starten. Desde aquele período - que já completava quase quatro meses – ele sempre tinha sido um chato. Agora, o mago exagerava em sua arrogância nas ultimas semanas. Parecia que os outros o confrontassem.
Quando lá chegaram, o padre estava a postos para recepcionar a todos. Parecia ter um rosto abatido.
-Ainda bem! Graças a Deus! Vieram nos auxiliar? Vieram em nome da Santa Sé? Desculpe a aflição, mas temo que o mal que esta atacando essa cidade esta nos deixando loucos.
-Calma – respondeu Gor prontamente – Bem, não sei qual o motivo disso tudo, mas viemos por algo que não tem relação com essa vila. Também não somos da Santa Sé. Mas, se nós contar o que houve por aqui para que todos estejam com tanto medo, talvez possamos auxiliar vocês. O que ocorreu por aqui? Qual o motivo das casas estarem fechadas desse jeito?
-É o fim dos tempos! – gritou apavorado o padre – Um espírito desencarnado invade a vila e ataca os homens e mulheres mais fracos. Como esta nas escrituras sagradas. Quando os mortos voltarem será o fim dos tempos. Meus amigos... Se puderem nos auxiliar serei eternamente grato! Somos alvos da fúria de um fantasma!
-Se ele soubesse o que passamos então em Starten... – cochichou Thror para Halphy.

Entrando na igreja, todo o grupo ficou sabendo do terror que a vila passava: há cerca de um mês uma jovem de nome Annete teria morrido de forma misteriosa. Havia comentários que talvez ela tenha sido morta por um amante misterioso, já que seus pais nos confidenciaram que ela esperava um filho. Nunca souberam quem era o pai. No corpo havia marcas estranhas, até mesmo para um animal. Muitos acreditaram que ela talvez tenha sido atacada por uma das criaturas tenebrosas que invadiu aquelas terras, pois estava sumida a um bom tempo. O padre, até então não acreditava muito nisso, mas esse era um assunto para ser tratado depois. O que realmente importava era o fato que tinha ocorrido. Tempos depois, o cemitério teria sido invadido por algum estranho que roubou o corpo da jovem. Rumores correram pela cidade, sobre adoradores de Satã se infiltrando na cidade, querendo os corpos dos mortos para criar vida profana. Alguns desses boatos falavam sobre pessoas da vila que teriam um interesse em especial no corpo da garota, para esconder um segredo. Nenhum desses fatos foi confirmado pelo padre, sendo que nem ele tinha certeza sobre isso. Mas o pior estava por vir. Já que a algumas noites atrás, no alto da torre na igreja apareceu na noite, a forma feminina espectral e diabólica da jovem Annete. Pelo que o sacerdote comentou, parecia uma mulher usando a mortalha que cobriu a jovem, quando esta foi enterrada. Ela proferia palavras de vingança e seus gritos criavam varias explosões de chama tão grandes, que cobriam uma casa pequena. Era o fogo do Inferno alguns diziam. Tudo teria ocorrido há uma semana, e desde então, toda a noite o espectro surge do nada soltando blasfêmias em outra língua. Não fazia muito tempo que o padre Bernard assumiu aquela congregação. Os pais da garota não queriam falar com ninguém sobre aquilo. Eles falavam que o filho do demônio possuiu sua filha e por isso ela atacava. Todos da vila se refugiavam em suas próprias casas, pois acreditam que a igreja era maldita, já que a jovem espectral surgia varias vezes de lá.
No grupo todos escutavam, prestando atenção em cada detalhe. Exceto talvez, Lacktum que nem queria saber sobre tudo aquilo. Este ficou na porta da igreja, olhando o sol se pondo no horizonte. Achava sempre tediosas as conversas com os sacerdotes, independente do deu que seguiam.
Halphy e Gor sentados nos bancos conversavam com o padre. Esse estava tão nervoso, que só se lembrou de falar seu nome depois de toda a explicação sobre o ocorrido na vila. Seu nome era Bernard e já era padre daquela congregação havia três meses, desde que o padre anterior morreu. Ele tinha medo que a Santa Sé não acreditasse nele. E a ladina e o guerreiro inglês sabiam como era a liderança da Igreja em relação a fatos fora do comum. Então, era dever do grupo ajudar aqueles pobres aldeões da vila.
Thror nunca compreendeu muito bem esses assuntos religiosos daquele povo. Ele acreditava que um só deus ficava muito atarefado para cuidar de tudo e todos. Zeus cuidava do céu, das aves, das chuvas e das tempestades. Poseidon tratava da água, dos peixes, dos monstros marinhos e das enchentes. Por ultimo, Hades cuidava dos mortos, dos Campos Elísios, do Tártaro, do rio Estige e de tudo que ficava abaixo do chão. Nada mais. Havia outros deuses, mas os mais importantes eram esses três.
Seton não ligava para isso. Ele acreditava que a natureza era sua companheira e mestra. Talvez nunca tivesse compreensão sobre o medo dos homens desses fantasmas, pois nunca foi uma pessoa que temia espíritos. Os espíritos que sempre conheceu eram os poderes da Grande Mãe.
Mas para a maioria que havia estado em Starten, acreditar em fantasmas era algo plausível.
Quando Halphy, Gor, Thror e Seton escutavam as suspeitas do padre – que dizia poder ser a culpa de uma curandeira que havia na cidade, pelo que ele dizia – o mago voltou gritando. Parecia que tinha visto uma aparição.
-Todos venham logo para fora da igreja! Acho que estou vendo a tal Annete!

Todos saíram da igreja apressadamente. Gor e Thror já desembainhavam as laminas de suas armas. Já Halphy preparava sua besta de mão ao mesmo tempo em que retirava sua saia improvisada, afinal era uma terra católica acima de tudo. Aparência era tudo em um lugar como aquele. Tanto que o próprio Seton tinha que embrulhar sua foice em vários tecidos para encobrir. Do modo como muitos naquela vila deveriam ser fervorosos fiéis da igreja católica poderiam achar que ele era a própria encarnação da morte.
Quando estavam fora do templo, notaram que as pessoas olhavam para o alto, em direção da torre da igreja. Lá em cima, se podia notar uma figura translúcida coberta por um manto branco, próxima ao topo. Ela tinha o rosto de uma jovem moça contorcido de dor. Olhava em direção ao grupo com certa raiva. Então, ela começou a proferir palavras com tom macabro.
-Mas que língua infernal é essa? – esbravejou Seton.
-Você respondeu seu próprio questionamento, druida – respondeu Lacktum, quando chegava próximo do grupo – Na verdade, essa linguagem é denominada abissal, o idioma dos seres das trevas, os gênios do mal que os homens tratam por demônios.
-Onde você estava? – a furiosa Halphy perguntou ao mago – Não veio logo para fora.
Vendo o padre se esconder de medo atrás do altar. Patético eu diria. Mas voltando ao assunto, o que ela esta dizendo – começou a traduzir o ruivo de cabelos arrepiados – são palavras de ódio contra o padre, a curandeira e algumas outras pessoas da vila. Tem esse tom macabro, pois é difícil falar. Até para mim. Esta nervosa mesmo... Esta usando jargão de baixo nível. Bem existe algo errado agora, pois ela parece estar falando coisa em outra língua. Parece...
-O fantasma fala a língua dos césares? – soltou Gor. Ele não falou aquilo como uma pergunta a qualquer um do grupo, mas sim pelo fato de achar aquilo muito estranho. Como uma constatação sobre o idioma que estava sendo falado agora. Quando serviu a coroa inglesa ele conheceu um homem que morou em Roma. Outro soldado, como ele. Isso foi depois de ter conhecido Kalidor, James e Galtran. Sempre ouvia atentamente historia de heróis guerreiros contra magos poderosos e malignos. Pois tinha saudade dos Imortais e essas histórias o lembravam deles. Mas tinha certeza de que aquilo era língua falada em Roma.
De repente o espectro macabro gesticulou com sua mão rapidamente, como se fizesse uma sinistra dança da morte. E sem motivo algum, seu corpo acompanhava o bizarro bailado. Até a criatura parar subitamente e estender sua mão em direção ao grupo proferindo algumas palavras:
-Bruciare
Em um instante, uma luz explosiva preencheu aquele começo de noite e ela cruzava o ar com força avassaladora. Só houve um instante para Halphy gritar.
-Corram!
A jovem saltou com desenvoltura única para longe do foco da luz incandescente. Lacktum pulou na direção das escadas da igreja para tentar se salvar. Seton levou metade do impacto da enorme bola de fogo que quase consumiu seu braço e perna esquerdos por inteiros. Gor e Thror se machucaram demais para fazer qualquer coisa em resposta. A armadura pesava demais, como uma pedra que desacelerava cada movimento. E isso causou enormes marcas de queimaduras por todos os corpos dos membros do grupo. Quando todos notaram, a causadora de todo aquele efeito devastador no meio da cidade, havia sumido. Como um fantasma.
Seton, mesmo ferido, começou a ajudar os outros. Logicamente pelas feridas no braço, não pode lançar magias de cura, nem usar seus emplastros, mas sabia como tratar de queimaduras. Os aldeões agora saiam de suas casas, para tentar auxiliar o grupo. Eles tinham rostos tristes e deprimidos, abatidos por alguma coisa que os aventureiros conheciam bem: medo.
-Deuses! – falou Seton, enquanto tratava as feridas e alguns aldeões o auxiliavam – Por Cernunnos e Ceridween! Aquele espírito quase nos matou! E como arde!
-Eu não teria tanta certeza – soltou Halphy pensativa.
-Por acaso, quer me fazer acreditar – disse um Lacktum irritado – que aquele ser desencarnado não queria nos matar? Olha...
-Escute direito ruivo! Para começo de conversa, ela realmente queria nos matar. Mas você tem que notar algumas coisas estranhas. Primeira, é que o padre disse que a criatura lançou uma esfera de fogo, como hoje. Ao que parece, é a primeira vez que um grupo de aventureiros vem desde então. E o suposto espírito soltou um tipo de magia rara nos dias de hoje contra nós. Não é suspeito?
-É verdade...
-A segunda coisa a se notar é exatamente o fato dela lançar magias. A tal Annete era só uma mera camponesa, nada além. O feitiço como falei antes, era poderoso o bastante para ferir gravemente e o tolo guerreiro grego. E se não fosse pela imortalidade de Gor e a resistência de Thror eles poderiam ter morrido. E desde que eu me lembro criaturas desencarnadas não são conhecidas por possuírem grandes poderes arcanos. A não ser que os tivessem em vida. Minha mãe me ensinou isso.
-Isso é bem correto – disse Gor, levantando após o golpe arcano e cobrindo seu corpo para que os aldeões não visem sua cicatrização veloz – mas ela não poderia ser uma maga ou feiticeira sem que a aldeia soubesse?
-Pouco provável que fosse uma maga, sendo que seria necessário um tomo arcano para lançar magias. Essa aldeia é pobre demais e supersticiosos o bastante para notar um grimório. Feiticeira é mais provável, mas notou como ela mudou o idioma sem motivo algum? Ela queria nos assustar e começou a falar em outro idioma.
-Como se fosse uma palavra de ativação! – soltou Lacktum, batendo uma mão fechada contra a palma da outra, imaginando ter notado algo.
-Palavra de ativação? O que seria isso? – perguntou o já confuso Thror.
-Quando um item mágico é criado, - começou a explicar Lacktum – alguns deles simulam efeitos mágicos específicos que são acionados através de uma palavra. Assim, o efeito surge como se fosse mágica desse usuário. Mas é necessário muito talento em ludibriar um item mágico, pois alguns ladinos são conhecidos por usar esses itens.
-Como assim? - perguntou Thror.
-É que só arcanos podem usar esse tipo de item normalmente.
-E eles precisam ser lidos no idioma de seu criador – completou Halphy.
-Acreditam então... – falou Gor olhando para a jovem.
-Que foi obra de um item arcano. Não de uma magia propriamente dita. Nosso fantasma é falso.


[1] Ilha mítica de onde teriam vindo heróis das lendas arturianas, como Morgana, Lancelot, Merlin e o próprio Arthur. Também seria seu lugar de repouso final.

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