Pages

Mostrando postagens com marcador Brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasileira. Mostrar todas as postagens

31 de dez. de 2012

A dublagem brasileira

As músicas que mais gosto de j-rock e j-pop são sempre aquelas que me lembram aberturas de animes. Mas devo confessar que uma das primeira músicas que aprendi foi Geração dos Sonhos (Daydream Generation) encerramento de YuYu Hakushô na extinta TV Manchete. Mas ai vem a ideia de muitos fãs puristas, falando sobre como a dublagem brasileira é ruim. Eu discordo dessa opinião.
É fato que os seyuus (dubladores no Japão) são cultuados como ídolos por lá, só que isso é só uma parte do motivos para queremos ouvir os sons em seu audio original. A competência que os dubladores possuem em animes e e CDs dramas é demais. É só notar que certos personagens masculinos são dublados por mulheres, assim como Edward Elric de Full Metal Alchemist, e poucos notam isso de primeira.
Agora, qual motivo de falar das dublagens? Os brasileiros tem sim pessoas competentes! A prova disso é a comparação com outros países. Um exemplo são os dubladores do México, Espanha e Estados Unidos. Me lembro quando vi um episódio de Los Caballeros del Zodiaco, sinceramente muito ruim. É necessária uma boa coordenação entre a fala dos personagens e a ação deles.
Além disso, temos que nos lembrar de Yuyu Hakushô. Todas as vozes combinaram muito bem no anime, mesmo que alguns mais ortodoxos não gostem. O que me fez gostar dele foi o humor. Ainda me lembro dos gritos de personagens como "Ah eu sou Toguro!", "Que se dane o mundo que não me chamo Raimundo!" ou "Yukinaaaaaa!", que me fizeram deitar de tanto rir. As piadas fizeram sentido por dois motivos:
-dubladores como Marco Ribeiro (Yusuke Urameshi) faziam uma boa interpretação do personagem, convertendo as ações para o nosso território tupiniquim;
-o trabalho feito com relação as piadas foi maravilhoso, afinal, nosso tipo de humor não é igual ao deles. Ainda me lembro de um episódio de Pokemon em que Ash se veste como uma vaca... Não fez nenhum sentido para mim. Mas ai surge o problema da dublagem.
Quando uma equipe de dublagem ou legenda se preocupa com uma boa adaptação de uma obra, ela precisa trabalhar com maneirismos, gírias e jargões de uma cultura, que são influenciados por uma sociedade, religião e costumes. Isso sem contar questões de tempo como no caso de um anime antigo em que não existiam determinados aparelhos eletrônicos.
Um fato mais concreto, seria imaginar que uma obra de mangá ou anime de 2000 fale sobre "o maior terremoto do Japão" fosse vista atualmente sendo que houve outros piores nos últimos anos. Sempre é necessário ter um cuidado com questões como história, geografia, literatura ou até moda e cultura pop de um povo. Mas com relação de dublagem ou tradução, tente fazer algo a respeito! Mande e-mails pedindo cuidado com as adaptações a editoras ou agências de dublagem. Você é um fã e merece respeito.

21 de dez. de 2010

"Os Três Mal-Amados" de João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.